Os fantasmas da instrumentalização política da sociedade - Por Tiago Bernardo Chingui Chingui

Os fantasmas da instrumentalização política da sociedade - Por Tiago Bernardo Chingui Chingui

 

 1. Angola tendo sido vítima da mais feroz, cruel e secular colonização Portuguesa, os processos históricos de luta para a sua emancipação e para afirmação da sua identidade, têm passado por fases de uma extrema conflitualidade do ponto de vista de definição de conceitos como angolanidade, nacionalidade e nacionalismo, tendo criado uma grande disparidade de preconceitos estereotipados, decorrentes não só da própria estratégia colonial de dividir para melhor reinar, visando logicamente perpetuar o seu advento por outras vias, mas também do próprio contexto sociocultural que configurava então espaço geográfico e humano daquilo que viria a ser o país que temos hoje;
 
2. Estava – se então numa fase de grandes transformações ao nível da geografia politica mundial, consequência lógica do fim da segunda guerra mundial e dos processos de emancipação dos povos de respectivos jugos coloniais, que tendo engajado uma boa parte das nações, o seu desfecho enquadrava – se no principio da necessidade de se encontrar soluções globais para problemas globais, priorizando os interesses das potências vencedoras, que logo a seguir apressaram – se em dividir o mundo em zonas de influência;
 
3. Era o auge da geopolítica mundial definida em dois blocos principais e tendo a independência de Angola, ocorrido num contexto em que a correlação de forças mundiais era favorável ao bloco de leste, na sequência do fracasso dos americanos na guerra do Vietname, as forças políticas portuguesas afectas ao partido comunista, tudo fizeram para que a preferência da entrega do poder político no nosso país recaísse àqueles cujos processos da sua afirmação identitária, confundia – se com os interesses daqueles que para Angola ensaiavam já formulas neocoloniais;
 
4. Essa sequência turbulenta de acontecimentos históricos, marcaram negativamente o passado e o presente do nosso país de sorte que, em vez de se constituírem em factores de construção de um ideal identitário comum, englobante e unificador, baseado na ancestralidade e autenticidade, têm funcionado como um elemento perturbador de todos processos que visam a afirmação de valores que estão na origem e configuram as bases fundamentais da existência dos povos que constituem hoje esse mosaico sócio – cultural angolano;
 
5. Assim, a necessidade da abordagem desse tema torna - se tão pertinente e actual, implicando também recorrer a historia da metafísica ocidental, para a qual e no caso da ideia de homem como ser “ontológico”, tudo processa – se como que este nunca tivesse uma origem ou qualquer limite histórico – cultural e linguístico, capaz de se constituir em espaço da sua afirmação identitária;
 
6. Nessa óptica, atacar, criticar ou tornar mesquinha a identidade de outrem significa tentar dissolver as bases de todo essencialismo filosófico, teológico - cultural ou ético – religioso de todo aquele que não é por nós. Essa critica a noção de identidade do outro, indica também a fonte ideológica e teórica daqueles que se posicionam como cidadãos do mundo, fazendo da intolerância baseada em todos universalismos abstractos, bem como dos particularismos regressivos e privatizantes, a fonte principal da sua afirmação identitária;
 
7. Daí que, todas as formas dogmáticas e estigmatizadas de inviabilização da tolerância, fraternidade, convivência e hospitalidade peculiares aos povos africanos, provêm da adesão a uma origem identitária vincadamente híbrida e fictícia, que produz uma patologia na comunicação com a identidade do outro e a ruptura na compreensão recíproca da interacção dos processos identitários, resultando em desconfiança, com reflexos confusos na percepção de nós mesmos, ao mesmo tempo que funciona como catalisador de sentimento de medo de sermos reduzidos a nossa verdadeira dimensão de “zero” do ponto de vista da origem da nossa identidade.
 
8. Na prática e nesse horizonte, os ideais do respeito pela diferença, tolerância e autonomia no pensamento, podem constituir uma reversão de dogmas que geram preconceitos e estigmas estereotipados, se a esses não se contrapuser a pratica de dialogo, dialogo que pressupõe movimentar – se num campo semântico e conceitual que leva em conta a distinção e a diferença, fazendo dele (o dialogo de culturas), uma palavra de consciência para a construção do conceito de nação;
 
9. Assim, interrogar a intolerância que resulta desses dogmas é pois questionar as relações do “eu” com outro, mas sobretudo, de nós para connosco mesmos. E este “eu” que nos é tão intimo, passa a ser também inquietantemente estranho na medida em que, partindo do adjectivo “familiar” e do seu antónimo “secreto, ou escondido”, encontramos então a coincidência entre o conhecido e o desconhecido. E na articulação da própria palavra, inverte – se o conhecido em seu contrário, nessa enigmática presença do estranho no mais familiar, familiar esse que em certas condições manifesta – se como estranho em nós mesmos;
 
10. Pelo que, o medo fixa então o estranho fora de nós, revelando naquilo com o qual deviamo – nos familiarizar, algo potencialmente impregnado de estranho, que deve ser repelido para fora do espaço do nosso “eu”. 
 
Também e nessa altura, o nosso “eu” primitivo, situado ainda no estágio do inconsciente, assume uma dimensão patológica latente que quando se manifesta, para além de criar em nós uma crise do vazio de identidade, projecta para fora de si tudo o que experimenta como estranho, assustador e perigoso. 
 
E por aí, um duplo estranho constituído por “eu” e por não “eu” é visto como algo com a letalidade do meu “eu”. E diante do verdadeiro estranho que devíamos recusar sem consciência da verdadeira recusa e com qual nos identificamos sem saber porque, perdem – se os limites entre o real e imaginário, de maneira que se estabelece o conflito entre a necessidade de nos identificarmos com outro que nos devia ser familiar, evitando que ele permaneça ali como desconhecido, que deve ser extirpado e repelido para fora do espaço onde pretendemos erguer a nossa identidade fictícia e metafísica.

 

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