Moçambique: Para evitar novos protestos, governo subsidia o preço da farinha de trigo para não aumentar o pão

Moçambique: Para evitar novos protestos, governo subsidia o preço da farinha de trigo para não aumentar o pão

Moçambicanos vão ter mais peixe

mas continuam sem saber pescar!
 
O Governo moçambicano vai subsidiar com 200 meticais (4,2 euros) cada saco de 50 quilos de farinha de trigo, no âmbito da implementação das medidas de mitigação do custo de vida no país, anunciou hoje o executivo. O agravamento do preço de pão e de outros bens de primeira necessidade foram a causa da revolta social violenta que se verificou, sobretudo em Maputo e Matola, no início deste mês. 
 
 
Segundo fontes clínicas, os confrontos opondo populares e a polícia provocaram a morte a 18 pessoas, ferimentos a mais de 500 e detenções de mais de 200. De acordo com o Governo, morreram 14 pessoas. 
 
Na sequência dos tumultos, as autoridades decidiram conceder subsídios à indústria panificadora, isenções fiscais na importação de vários bens e o congelamento dos aumentos dos preços de luz e água. 
 
Hoje, no âmbito da implementação do referido pacote de medidas, o porta voz do Conselho de Ministros de Moçambique, Alberto Nkutumula, disse, em conferência de imprensa, que o Governo determinou a entrega de um subsídio de 200 meticais por cada saco de farinha de trigo comprado pelos panificadores. 
 
“O subsídio será dado às padarias e não às moageiras, como chegou a ser admitido. A medida entra imediatamente em vigor e não foi estabelecido nenhum prazo para a sua duração”, sublinhou Alberto Nkutumula, que é igualmente vice-ministro da Justiça. 
 
Questionado se as padarias informais, a que a maioria da população residente nos subúrbios das cidades moçambicana recorre, vão receber a compensação, o porta voz do Conselho de Ministros de Moçambique foi perentório: “O subsídio só será atribuído aos operadores formais, porque o desenvolvimento das actividades comerciais no país é exercida mediante licenciamento, porque o Estado deve arrecadar receitas”, enfatizou Alberto Nkutumula. 
 
Escritores dizem de sua justiça 
 
Enquanto isso, escritores e poetas moçambicanos na diáspora criticaram a forma como Maputo geriu os aumentos dos preços dos bens essenciais e alertaram para a necessidade de os manter congelados por tempo indeterminado para evitar novos actos de violência. 
 
No entender de Delmar Maia Gonçalves, Jorge Viegas e Ascêncio de Freitas, só será possível "acalmar os ânimos" de uma grande parte da população moçambicana e "evitar manifestações ainda mais violentas" do que aquelas que aconteceram no início deste mês se o Executivo mantiver, a longo prazo, a sua decisão de congelar os aumentos de produtos essenciais. 
 
"Seria uma péssima opção terem congelado estes aumentos para daqui a um mês voltarem à carga com a mesma ideia. Se o fizerem, não sei se os moçambicanos não vão voltar a reagir de forma violenta, e penso que será mais grave porque poderá acontecer no país inteiro", alertou o poeta e escritor Delmar Maia Gonçalves. 
 
Falando à margem do 3.º encontro de escritores moçambicanos na diáspora, que decorre até sábado em Lisboa, o curador desta iniciativa criticou a forma como Maputo geriu toda a situação, lembrando que aos moçambicanos "já são pedidos sacrifícios há muitos anos e as pessoas apenas aguentam até um certo ponto". 
 
Apesar de não concordar com a forma como muitos expressaram o "seu descontentamento e desespero", Maia Gonçalves disse perceber essa "fúria", numa altura "em que muitos já não têm por onde se aguentar". 
 
"Obviamente que a situação foi aproveitada por delinquentes, mas não podemos meter todos no mesmo saco: de facto houve ali muitas pessoas trabalhadoras que se manifestaram de forma genuína para exigiram justiça", frisou. 
 
Para o escritor moçambicano Jorge Viegas a pobreza no país não pode ser combatida "apenas levando os moçambicanos a apertarem o cinto e a trabalharem mais, sobretudo quando o Governo continua a gastar a riqueza gerada de forma supérflua". 
 
"As pessoas, quando se sentem humilhadas e veem uma coisa que as penaliza ainda mais, reagem sem pensar e facilmente podem ser influenciadas a cometerem determinados actos", alertou. 
 
A existência de uma "espécie de 'novo riquismo' no país, e, sobretudo, o seu exibicionismo por parte de dirigentes políticos e empresas agrava ainda mais esta situação", destacou Jorge Viegas. 
 
Já o jornalista, escritor e poeta luso-moçambicano Ascêncio de Freitas afirmou não perceber como é que "uma pessoa inteligente como o Presidente Guebuza, que é um bom negociador, caiu na idiotice de autorizar um aumento daquilo que é essencial". 
 
"Não sei como é que se fez uma estupidez daquelas: a fome é tal em algumas regiões que não se pode aumentar aquilo que é essencial para alimentar os filhos", criticou Ascêncio de Freitas, para quem houve "uma clara falta de previsão das consequências da medida" por parte do Governo. 
 
A análise do embaixador em Lisboa 
 
O embaixador moçambicano em Lisboa sublinhou a necessidade de continuar a melhorar a qualidade do ensino em Moçambique para garantir às populações uma formação cívica adequada, e dessa maneira também poder reduzir, em parte, o risco de manifestações violentas. 
 
Miguel Mkaima destacou os "progressos" alcançados no sistema de ensino moçambicano – no âmbito da "expansão escolar que está por concluir" –, mas reconheceu que "ainda há muito por fazer", sobretudo "no que diz respeito ao melhoramento da qualidade do ensino e da formação cívica e ética" das pessoas. 
 
No entender do antigo ministro da Cultura de Moçambique, garantir às crianças "uma cada vez melhor aprendizagem é fundamental", também para "reduzir, em parte, o risco de se voltarem a repetir reacções violentas" como aquelas que aconteceram no início de setembro. 
 
"Independentemente das razões e dos problemas que afligem as pessoas, uma atitude agressiva sempre afasta da razão. Não é proibido zangar-se, todos podemos fazê-lo, mas quando esta zanga é acompanhada de uma falta de ética, aí todos perdemos", afirmou. 
 
Apesar de "conseguir perceber a frustração das pessoas", o embaixador de Moçambique em Lisboa criticou as manifestações violentas contra o agravamento do custo de vida que no início deste mês. 
 
É "preciso medir a nossa maneira de agir na sociedade, e é ali que a educação e formação que recebemos desempenha um papel fundamental", pelo que "isto deve ser discutido nos currículos educacionais", sustentou. 
 
Para Mkaima, o facto de Maputo ter congelado os aumentos de bens essenciais e ter anunciado subsídios para manter inalterável o preço do pão "demonstra uma clarividência por parte do Governo em compreender a situação de vida das populações, sobretudo dos mais frágeis". 
 
"Não considero que essas manifestações tenham sido uma clara indicação da violência da sociedade moçambicana, se fosse, não teríamos tido essa calma nos dias seguintes", referiu Mkaima, lembrando que é preciso olhar para este tipo de situações com um "olhar global", já que também acontecem em outros países, mesmo na Europa. 
 

 

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