Grande entrevista com João Kambuela - Candidato Presidencial

Grande entrevista com João Kambuela - Candidato Presidencial

 O cientista po­lítico João Kambowela foi dos pri­meiros cidadãos a manifes­tar a sua intenção de concor­rer à Presidência da República como candidato independen­te. Em 2008, chegou, inclu­sive, a reunir as assinaturas que então eram exigidas para tanto. Todavia, com a entra­da em vigor da nova Cons­tituição, ele e os seus «cole­gas», entre os quais se pode destacar Luisete Macedo Araújo e Vicente Pinto de Andrade, acabaram por le­var, à última hora, uma «fin­ta» daquelas, acabando alguns por somar importantes prejuízos materiais decorrentes da prepara­ção já avançada para a corrida nos termos então permitidos. Já se es­tava a pensar que, em face disso, o homem tivesse desistido do sonho de chegar à Cidade Alta, pretensão que o antigo figurino constitucio­nal permitia a todos os cidadãos que estivessem em condições de o fazer legalmente e se julgassem capazes a tanto. Todavia, este ci­dadão malangino, a caminho dos 55 anos, diz que está longe de ter atirar a toalha ao tapete. Numa longa entrevista ao Semanário An­golense, ele abre parte do jogo que tem estado a fazer para concreti­zar as suas aspirações, no quadro dos moldes exigidos pela nova Lei Magna exige: à cabeça de uma lista partidária. Aliás, diz que desistir seria uma traição aos «milhares» de cidadãos que apostam nele. Na conversa, debruça-se também so­bre vários outros assuntos de inte­resse nacional. Acompanhem-nos, que valerá a pena.

 

Semanário Angolense - João Kambowela era candidato inde­pendente às eleições presiden­ciais. Inclusive, já tinha reunido as assinaturas que na altura eram exigidas. Com a aprovação da nova Constituição, o figurino mudou, impossibilitando os can­didatos independentes de con­correrem. Como pensa resolver o seu problema pessoal: vai de­sistir da corrida ou concorrer por alguma coligação? 
 
João Kambowela - Desistir seria trair os milhares de angolanos que apostaram na minha candidatura e também as gerações mais novas que estão abaixo dos 60 anos, daquelas que têm uma outra visão. Acho que seria uma traição àqueles a quem eu dei a minha palavra de honra, ao aceitar encabeçar esta candida­tura da sociedade civil como inde­pendente. Seria uma grande catás­trofe para a minha personalidade e desses cidadãos que nas 12 provín­cias onde recolhemos assinaturas deram a sua força para que uma outra geração desse início ao princí­pio da mudança e rotatividade. No quadro do princípio democrático, é perfeitamente normal haver fins de mandatos e outros cidadãos assu­mirem a responsabilidade de dirigir o país. Eu continuo a ser candidato. Sinto que o Estado angolano, em particular a Presidência da Repú­blica, tem uma palavra a dizer em relação a esta candidatura, porque nós estamos com uma dívida extra­ordinária, por isso, pedimos que se­jam ressarcidos os custos do investi­mento que fizemos, tanto na recolha de assinaturas, que não ficou nada barato, e também na preparação da pré campanha ou campanha elei­toral. Nós compramos no exterior contentores com material, que até hoje está na Namíbia a apodrecer e ninguém diz nada. Perderam-se os parcos recursos que tínhamos, fruto da contribuição de vários cidadãos e empréstimos que contraímos. Por­tanto, estamos à espera que o Esta­do angolano diga como é que fica, não só a esta candidatura, mas à nação. Ninguém explicou aonde é que recursos foram alocados, que eram à volta de 300 milhões de dó­lares, aprovados pelo Parlamento. Foram feitos os registos eleitorais, os candidatos estavam preparados para a concorrência e, subitamente, uma das partes, que é o «candidato natural», decidiu não fazer eleições com aquela antiga Lei Constitu­cional. Quer dizer, não há uma explicação plausível, nem houve encontros para tal e a nação ficou sem saber por que motivo o processo foi interrompido, o mundo inteiro também não sabe porquê que An­gola não fez eleições presidenciais e estamos perante uma nova Cons­tituição, um outro cenário e não sabemos se teremos eleições ou não. Quando se começa a interromper processos, nunca se sabe quando  isso vai terminar. Quando entidades do Estado que têm responsabilida­de, não estão acima da lei, mas in­terrompem processos e os tribunais, os vários órgãos da nação, o próprio Parlamento não se pronunciam. Es­tamos preocupados com esta forma de se gerir a nação como se fosse uma quinta de alguém. Não deve ser assim, isto é um país, emergen­te, tem grandes responsabilidades regionais, continentais e mundiais. A candidatura está de pé, ela agora vai direccionar-se para o estabeleci­mento de coligações com forças polí­tico-partidárias. Seja como for, não concordo que os partidos sejam os únicos percursores das candidaturas presidenciais, porque, ao fim e ao cabo, mesmo com a fórmula apre­sentada, os candidatos vão ter de re­colher assinaturas ainda que cons­tem de uma lista partidária. Mas também pode ser que surja uma lista de cinco ou seis pessoas a terem o apoio extraordinário de coligações de forças políticas e partidárias. Alias, isso vai permitir que as coli­gações sejam amplas e mais interes­santes até. Acho que o que é preciso é identificarmos as personalidades que estejam interessadas a apoiar novas coligações para mudarmos o rumo deste país. Há emergência de novas lideranças no Zimbabwé, com Tsvangirai à frente, também no Quénia uma outra geração assu­miu o poder. Se já temos no Togo, no Gabão, no Congo Democrático, na Namíbia e em Moçambique novas lideranças, também terá de chegar o dia de Angola encetar transforma­ção e mudanças pacíficas durante a transição pós-José Eduardo dos Santos.
 
SA - Já lhe ocorreu fundar um partido ou aliar-se a algum dos que já existem?
 
JK - Em política, nunca se diz nunca. Ou, como dizem os ingleses, «never say never». Em política, exis­tem sempre as coligações de conve­niência, tanto individuais como de grupos. Neste momento, estamos a criar essas sinergias através de deba­tes e conversas com forças políticas, para encontrarmos a melhor fórmu­la que possa dar uma outra dimen­são à vida política e partidária do país na sua generalidade. Por isso, a candidatura e os parceiros que virão têm esta noção de que teremos de redobrar esforços e criar essa coliga­ção de forças, a fazer aberturas e dar início a uma nova etapa. A política nacional está amorfa, com muitos problemas nos partidos, incluindo a falta de liberdade de discussão no seio do MPLA. Há problemas na FNLA, que recentemente realizou um congresso para esbatê-los. De­sejamos o melhor para esse partido, que marque a sua presença no cená­rio político como uma organização que foi a pioneira na luta naciona­lista de Angola. A UNITA também precisa de renovar a sua «frota» de liderança para que possam emergir jovens com uma visão mais am­pla, sem grande pendor regionalis­ta, mais nacional e inclusiva. Há ainda as outras forças partidárias que emergem e estão a renovar e a procurar estratégias de como se apresentarem ao próximo pleito eleitoral. O cenário está a mudar. Então queremos juntar essas forças e darmos, todos, as mãos, porque é necessário que debatamos este país. O problema é que ainda há muita gente a olhar para questões do bol­so, da sua saúde, da sua vida, do seu carro, do seu apartamento, ainda há um bocadinho o problema do pão e isso faz com que muita gente seja prisioneira daqueles que têm dinheiro e conseguem manipular. A nossa política caracteriza-se por esse aspecto «mercenarista»: há pessoas que recebem dinheiro para criar tu­multos aqui, desestabilização acolá e isto não é nada bom para a política nacional. Devíamos ser mais nacio­nalistas, visando a construção da nação, que o resto vem depois. Não se deve colocar a questão do «kum­bu» à frente de tudo. 
 
SA - Se um dia fosse eleito Pre­sidente da República, quais se­riam as suas prioridades? 
 
JK - Bem, em primeiro lugar, nós temos problemas no conceito de re­conciliação, porque o actual modelo de reconciliação dá a sensação de ser um modelo de vencedores duma ba­talha. Impuseram uma fórmula que não tem fundamentos nenhuns em termos de reconciliação. A reconci­liação não ocorre somente quando se partilha o poder com outras for­ças políticas, não é necessariamente isso. Há várias questões pendentes do presente e do passado da luta de libertação nacional e ainda do pas­sado do pós- independência que os angolanos devem discutir. Há, ain­da, a questão de decidir se vamos amnistiar aqueles que se apodera­ram de dinheiros públicos e hoje se apresentam como grandes empresá­rios. Há o problema dos seus filhos que também têm acesso extraordi­nário às riquezas do país, se vamos ter de esquecer isso sem discussão ou vamos ter de amnistiar sem qual­quer debate, o que é que tem de acontecer. Vou aprofundar o con­ceito de reconciliação, que terá de se enquadrar na lógica de uma Comis­são da Verdade, que terá de discutir os problemas da nação, mas sempre no intuito do perdão, da colocação de uma pedra sobre o que se passou. Mas deverão pedir desculpas. Só assim seguiremos em frente. Depois temos a problemática da saúde. A formação dos recursos humanos em todos os aspectos e até a nível inter­nacional será encorajado se me de­rem a oportunidade de dirigir essa administração e este Estado. Teria outra visão no sentido de sensibi­lizar as pessoas de que Angola não vai a lado algum se não apostarmos na formação de quadros angolanos. A escola será uma obrigação, cada um de nós tem de melhorar a sua capacidade escolástica e contribuir em vários sectores profissionais para o engrandecimento desta Angola, deste continente e do mundo em ge­ral. Ainda na saúde, iria beber das experiências de outros países, que estão muito avançados neste sec­tor. Por exemplo, a África do Sul ou Cuba, que é um país que tem estado a dar um grande contributo à nossa saúde. Outra prioridade seria a in­clusão de Angola dentro da noção da SADC. Julgo que temos estado a evitar a inclusão integracionista nesta organização regional, porque os interesses económicos estão liga­dos a Portugal e ao Brasil. Há um bloqueio extraordinário para que Angola não se integre na região, há receio de que as grandes potenciali­dades da África do Sul possam asfi­xiar o nosso mercado. Não sou apo­logista dessas atitudes. Os angolanos têm capacidades. Hoje já temos vários empresários: então porque é que eles não investem na nossa in­dústria, para competirmos também nos outros mercados. Das 40 maio­res empresas africanas, a África do Sul tem 18, Angola só uma, que é o BAI, que ainda beneficia de fundos públicos. Não temos empresários que construíram de raiz e possam exportar sem a tutelagem do Estado. O discurso será aberto, a sociedade será mais dialogante, respeitando as nossas línguas nacionais, a nos­sa cultura, pois Angola tem grandes potencialidades e talentos, nos quais vamos ter de apostar mais, em vez de gastarmos milhões e milhões de dólares em artistas estrangeiros. Temos de olhar para os mais ve­lhos que precisam de dignidade, os jovens que estão nas artes, conferir um cariz mais profissional às artes e à cultura.
 
 
«A transição tem de ser pacífica» 
 
 
Mais tarde ou mais cedo, o presidente José Eduardo dos Santos vai ter de abandonar o poder. Daí que tenhamos 
perguntado a João Kambowela como via a fase de transição a que isto obrigará naturalmente. 
 
 
SA - Qualquer dia, naturalmente, o Presi­dente José Eduardo dos Santos vai ter de abandonar o poder. Como prevê que será a transição? 
 
JK - Esta pergunta é importante, porque, neste momento, há uma discussão em vários sectores da sociedade sobre o que isso vai ser, se será o fim de uma era e o princípio de outra: esse período de transição será pacífico ou não? Do meu ponto de vista, o Presidente da República é o único cidadão que neste momento tem poderes de decidir a transição, mas tem de decidir já. De­pois de trinta e um anos consecutivos de poder, seria aconselhável que, nesta altura, o Presidente da República pensasse em aposentar-se da políti­ca activa, porque ele tem outros aspectos para os quais pode olhar e contribuir da melhor forma, sendo um homem com muita experiência para transmitir ao resto do continente ou para o acon­selhamento à própria geração que no futuro vai liderar o país. E seria bom que houvesse também um ex-presidente. O melhor seria que a família Dos Santos e o próprio MPLA pensassem que se­ria ideal que ele liderasse essa transição, mas de fora para dentro, à semelhança do que Chissano fez. Pode liderar o partido e permitir a entrada de outro quadro do próprio partido e submetê-lo ao crivo eleitoral no país. Isso iria permitir uma transição pacífica. O problema é que se o Presi­dente da República não decidir dar início a essa transição ou fazer um debate sobre isso, poderá ocorrer o cenário da Costa do Marfim, onde Houphouet Boigny se foi sem colocar um herdei­ro ou uma figura de proa para a continuidade da governação e posteriores eleições. Ou pode ser o cenário criado pela partida de Agostinho Neto, que envolveu directamente o próprio José Edu­ardo dos Santos e alguns membros do bureau político, num processo que foi pacífico de início. Porém, agora estamos numa nova era: hoje já existem forças suficientes no próprio MPLA que também almejam a chefia do Estado. O cenário será interessante, já que poderão emergir mais de dez candidatos à luta pela presidência. Se isso for pacífico, será bonito e interessante para a democracia em Angola. Mas se o Presidente da República não contribuir, com a sua nobre­za, experiência e inteligência, preocupa-nos bas­tante. As mágoas, os rancores e os problemas do passado poderão sobrelevar e as pessoas virem a pensar com o coração e não com a cabeça. Esta é a nossa maior preocupação. Governar é também prever, para que o pior não aconteça. Não sei se o vice-presidente da República reúne consenso no MPLA. Se reúne, ele poderá liderar a transição para as eleições presidenciais, no caso de Eduar­do dos Santos não participar no pleito.
 

Sobre algumas «esquisitices» da Lei da Probidade 
 
 
 
SA - Acha que a Lei da Probidade Pública está a sair do papel? 
 
JK - Todos os países do mundo têm de ter alguma forma de regular a re­lação entre o sector privado e o sec­tor público, os actores que jogam esse papel e clarificar o relacionamento e a movimentação desses quadros que vão gerindo o erário público. A Lei é bem-vinda. Agora, o problema é se, de facto, há vontade e coragem polí­tica de implementá-la. Há coragem? Não sei. Penso que a problemática é que a maior parte dos gestores públi­cos angolanos estão em profundo con­flito de interesses, porque eles são, na sua grande maioria, os empresários que temos em Angola. Quer dizer, es­tão numa posição privilegiada, por­que são ao mesmo tempo governantes e empresários, pelo que, neste sentido, a aplicabilidade não é possível, já que estariam a jogar contra os seus pró­prios interesses. Quanto à declaração de bens e à Tolerância Zero, não sei se a sua execução será neste período ou será para os que hão-de vir. Pre­sentemente, todos os que fazem parte do sistema de governação não estão em condições de aplicar a Lei da Pro­bidade, nem a Tolerância Zero. Este princípio consta do meu programa de governo (Princípios fundamentais) de 2005. Fui eu quem apresentou a no­ção de Tolerância Zero contra a cor­rupção. Talvez a nova geração venha a aplicar isso, mas duvido muito que esta geração, que está de passagem, tenha coragem de aplicar essas regras, que contêm muito boas intenções, mas não serão aplicadas nesta fase. 
 
SA - Três figuras proeminentes do Estado não estão abrangidas pela obrigatoriedade de declaração de bens. Concorda?
 
JK - Não sei porquê. Por norma, as sociedades regem-se por exemplos e, quando se lidera um país, uma or­ganização, as figuras proeminentes têm de dar o exemplo. Em nenhuma parte do mundo isso acontece. Nin­guém devia estar acima da lei. Por que razão não estão abrangidas, se ninguém está acima da lei? As leis estão para ser cumpridas e todos eles devem declarar e se alguma questão for levantada, tais pessoas podem ser abrangidas e ser-lhes retiradas as imunidades para comparecerem pe­rante a justiça e serem julgadas. Nos Estados Unidos, Nixon abandonou o poder por corrupção e abuso de po­der. Brian Rooney, primeiro-ministro do Canadá, também foi a tribunal, embora fosse depois do seu mandato, devido à venda e compra de Boeings para a Air Canadá. Na África do Sul, Mandela, como chefe do Executivo, teve de responder por causa de algu­mas irregularidades, apesar dele não ter tido nada a ver com o caso. Eram questões que se levantavam e ele colo­cou-se à disposição do tribunal, que foi ao seu encontro, para a investiga­ção. Tem de se dar bons exemplos aos jovens. 
 
SA - O caso BNA dá a imagem de que o país está a saque? 
 
JK - Acho que, se o Manguxi (An­tónio Agostinho Neto) estivesse em vida, talvez muitos fossem parar aos campos da revolução e de con­centração. Estamos a contribuir no enfraquecimento das instituições do Estado angolano, porque não é pos­sível que essa gente tenha acesso tão fácil ao tesouro do país. Quando até um empregado de limpeza ou um segurança tem acesso e pode transfe­rir milhões para bancos de fora é um grande sinal de enfraquecimento das instituições financeiras do nosso país. Estou muito preocupado, porque es­tamos a dar um péssimo exemplo à juventude, que agora começou a onda de assaltos a bancos. Os jovens dizem: se eles podem ter acesso a tan­to dinheiro, porque é que nós não? Agora há a competição entre os filhos daqueles que podem ter muito di­nheiro e os jovens que nada têm, mas que almejam os mesmos bens, porque eles partilham os mesmos espaços nos «tchilos» dos fins-de-semana, onde os primeiros ostentam grandes carros. É um mau precedente para a sociedade. Se essa liderança, que está em perma­nente conflito de interesses, não puser cobro a isso e der um exemplo real, parando com essa farra, parar esses jovens que não trabalharam, nada fizeram e têm acesso a tantos milhões de dólares, vamos ter problemas mui­to sérios, vamos continuar a ter uma sociedade violenta, há jovens que não têm ocupação, não têm carreira, nada. Tem de haver um bocado mais de dureza e pôr-se cobro a esta situ­ação.
 
 

Em relação a eleição atípica, os jornais privados e a democracia 

 

 

 

SA - E em termos de democra­cia, há progressos ou houve um retrocesso? 
 
JK - Retrocedeu, com a introdu­ção da fórmula de eleição atípica. Aquilo foi uma tentativa de retirar ao cidadão a possibilidade de esco­lher o presidente da sua preferên­cia, o cidadão que poderia através de um ou dois mandatos dirigir a nação. Este é um direito funda­mental dos angolanos. O quadro foi alterado, porque os interesses daqueles que detêm o poder políti­co decidiram anular a possibilida­de de o cidadão votar directamente no seu candidato a presidente. A democracia sofreu um revés, que se reflecte no resto da sociedade: centraliza-se o poder e cria-se mo­nopólios em tudo. A comunicação social está monopolizada pelas fa­mílias que detêm o poder económi­co. O sector privado, que devia ser de economia de mercado, também é uma economia monopolística das mesmas famílias, que jogam o papel em todos os sectores da vida pública e privada. Elas é que fa­zem uma peneira e decidem quem pode ser grande agente económico. Só essas famílias, os seus parentes e amigos muito próximos pode­rão fazer negócios neste país. Mas há possibilidade de revermos esta Constituição num futuro breve. Daqui a mais cinco anos pode-se dar a volta a esta Constituição a fim de devolvermos os direitos dos cidadãos, para que eles sintam que estão num país democrático e li­vre. Hoje temos dificuldades de nos exprimirmos e expressarmos. Há problemas em Cabinda, as pessoas não podem manifestar um ponto de vista se riscos de se ir parar à ca­deia e depois julgadas com base em leis que já não deviam existir. Em Benguela houve a interditação de manifestações; o mesmo acontece em Luanda. 
 
SA - Faça uma análise à liber­dade de Imprensa no nosso país.
 
JK - Criaram-se monopólios, há redução das liberdades. Os mono­pólios que foram criados para ofus­car o espaço livre e independente no mercado privado, são forças monopolísticas que estão ao servi­ço do regime. Isso corrói as liberda­des dos cidadãos de terem acesso à informação e a capacidade de in­formar, de opinião. Estamos preo­cupados porque não sabemos onde é que poderemos dar os nossos pon­tos de vista, mesmo que eles sejam crítico. As sociedades plurais são as que têm mais capacidade de cres­cimento. Precisamos de ter mais diários, mais semanários, era isso que esperávamos, mas com pontos de vista que contribuíssem para o desenvolvimento desta nação. Há vários sectores sobre os quais pre­cisamos discutir mais, mas tem de haver essa corrente de opiniões e esses jornais que trazem a infor­mação. Não do ponto de vista de eles contra nós, assim estaríamos a condenar o mercado. Mas acho que isto é temporário, porque, embora a tendência seja asfixia da plurali­dade de opinião. Isso está interliga­do com as próximas eleições e eles querem, através do músculo econó­mico, asfixiar essas forças. Isso não é bom nem para o Estadom, nem o resto da sociedade consumidora. 
 
SA - Como vê o desempenho da nossa Comunicação Social? 
 
JK - Estou entristecido porque o Semanário (Angolense) e A Capital sofreram esse revés. Oxalá os novos donos tenham um horizonte e uma visão mais ampla do país. Precisa­mos de mais jornais semanários, ao invés de se reduzir. Leio tam­bém o Agora, o outro Angolense, agora apareceu o Novo Jornal, que às vezes se limita a alguns casos. Como vou atrás da visão política de alguns correspondentes desse jornal, algumas vezes limito-me a ler somente dois artigos de grande interesse no Novo Jornal. O resto é periférico, sem muito interesse. O Jornal de Angola também leio, porque é o que nos traz algumas cenas do dia-a-dia, mas, como tem muita carga partidária, acabamos por ver mais os óbitos, a necrolo­gia. Quanto às rádios, acompanho a LAC, a Rádio Ecclesia, a Rádio Despertar, gosto da música e a vida social que eles retratam. Fico pre­ocupado, agora, com a limitação dos debates na Rádio Ecclesia. Dá a impressão de se pretender asfi­xiar a voz crítica dos cidadãos, até porque já se reduziu a um debate por semana. A Rádio Ecclesia de­via permitir que os cidadãos deba­tessem muito mais vezes. A LAC às vezes leva-nos a questionar se está a celebrar o dia de Cabo Verde, pois toca exageradamente música cabo-verdiana. Tem de haver nor­mas que visem proteger a música nacional. Normalmente, os países limitam a 10% a música estrangei­ra e a nacional toca a 90 por cento. Igualmente, a Rádio Cazenga toca a música brasileira como se esti­véssemos no Brasil. Também gos­tamos de música de fora, mas não deve ser assim, nenhum país faz isso. É o que o Jojó da Rádio Des­pertar chama de «um mbandario». Tem de se pôr ordem a isso, os Dj não podem ir para as rádios para satisfazer a vontade de um grupo ou deles próprios. Têm de saber que existem ouvintes sofisticados, por isso, têm de priorizar a música angolana e as vertentes variadas e depois música externa, com uma boa selecção.  
 
 
Quem é o João Kambowela? 
 
 
 
A esta pergunta, o nosso entrevistado respondeu nos seguintes termos:
 
«Sou José João Louro Jú­nior. Louro vem de Lândula e tam­bém do Lourenço de Kalandula. Há um Cerqueira Lourenço muito co­nhecido, meu tio, meu pai mesmo, antigo enfermeiro do quadro, pai do João Lourenço, que foi da UPA. Eu fiquei com o Louro. Há essa componente Louro, dos Bâssala wa Landula, os Kalandula, que são os caçadores daquela área. A parte da minha mãe vem de Pungo Andon­go.
 
O João Kambowela é um cida­dão angolano, nascido na Maxinde, Malange, e que cresceu no Sambi­zanga. Vai completar 55 anos a 30 de Setembro, portanto, é puramen­te mwangolé, como a gente diz. Fiz a minha formação em Ciências Po­líticas e Relações Internacionais, na Universidade de Calton, em Otta­wa, a capital canadiana. Estive qua­se 16 anos no Canadá, depois de ter passado pela Namíbia, Botswana e Zimbabwe, tendo regressado a An­gola, a caminho de 20 anos.
 
Estou aqui, sou um humilde cidadão, que veio dar a sua contribuição, mes­mo a nível profissional, mas tive grandes dificuldades em satisfazer este desejo e também de cobrir a componente profissional no dia-a-dia da minha vida. Tenho grandes dificuldades neste aspecto. Estudei na Dona Rosa, no Marreco, aqui no Sambizanga, joguei muita bola, na Petroquinta. Joguei pela selecção do Botswana e também do Zimba­bwé, e quase ia ao Mundial de 1986, no México, pelo Canadá». 
 
Acrescentando:«Regresso ao país, em finais dos anos 90, depois de ter tido um belíssimo encontro com o Presidente da República, em Nova Iorque, por altura da sua pri­meira viagem aos Estados Unidos. No encontro, manifestei ao Presi­dente a vontade de regressar, ten­do ele dito que era oportuno, pois, ‘Angola está a precisar de quadros e vocês devem regressar’.
 
E eu re­gressei, mas, infelizmente, nunca tive oportunidade de falar com o Presidente, para exprimir que, ao longo destes anos todos, tive difi­culdade em manter um emprego, porque muita gente faz confusão pelo facto de um cidadão como eu exercer o seu direito de livre ex­pressão, o direito de exprimir um ponto de vista. Isto seria crucial na questão de se encontrar um empre­go ou conseguir mantê-lo, dadas as pressões que foram exercidas sobre as empresas que me haviam em­pregado. Tive dificuldades em al­gumas petrolíferas, porque se fazia confusão. Eu era somente analista político, mas as pessoas viam-me como um apoiante do outro lado da barricada, por exercer um direi­to que me assiste e que é garantido pela Constituição. Aliás, foi por isso que houve a luta de libertação nacional, que tirou as amarras do sistema colonial. Portanto, o exer­cício desse direito complicou a minha vida profissional, tanto nas petrolíferas, como na OCHA, das Nações Unidas, onde fui oficial de campo, tendo sido o primeiro an­golano a exercer tal tarefa».
 
João Kambowela diz também que as dificuldades que tem estado a enfrentar injustamente em face do seu posicionamento estenderam-se também à esfera individual da sua esposa, que terá problemas na em­presa em que trabalha, a Movicel, em clara violação dos seus direitos constitucionais. 
Com mais de 10 filhos de dife­rentes relações, como bom malan­jino que é, não dispensa uma boa funjada de peito alto ou aquelas improvisadas de chouriço e ovo. Desportista praticante (joga ténis e futebol de velhas guardas), diz que tem o 1.º de Agosto no coração, embora também tenha uma que­da pelo Progresso do Sambizanga.
 
«Gosto ainda do Chelsea e aprecia­va o Benfica de Lisboa ao tempo do Eusébio», atesta
 
A uma pergunta sobre se tinha algum político a quem admirasse, João Kambowela disse que estava encantado com Barack Obama, a quem considera a «maravilha do mundo». Diz que aprecia também o velho Mandela e Julius Nyerere, pela simplicidade de ambos. «Em Angola, segui de perto alguns as­pectos da política de Agostinho Neto. Apreciei alguma da sua vi­são, embora em alguns aspectos não concordasse com ele. Seja como for, há algumas das suas ex­periências por resgatar. Aprecio também a vertente de persistência e coragem do Presidente da Repúbli­ca, um homem que entrou bastante cedo na política e continua até hoje com muita força», su­blinhou. 
 

Por estranho que possa parecer, ape­sar da sua mais que demonstra­da capacidades de trabalho João Kambowela está desempregado e nem sequer tem casa. Deixemos que seja ele a falar de viva voz: «Não tenho emprego, nem casa própria. Sobrevivo de al­gumas assessorias que vou prestando, como foi a mediação do conflito da FNLA. Vou assessorando tam­bém algumas federações desportivas e vai caindo alguma coisa aqui e acolá para ajudar nas despesas do lar». 
 
 
*Semanario Angolense
 
 

Comentario

E do MPLA

Da Banda. | 17-09-2010

Os proprios malanginhos nao iram votar em ti... Comu malanginho que es, ja deverias aderir o MPLA .

Alias, a tua familia e do MPLA comu o senhor mesmo citou.

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